Clima favorável embala colheita recorde de soja

Lavouras se desenvolvem bem em Mato Grosso; volume deve alcançar 124 milhões de toneladas no país
Por Marcela Caetano — De São Paulo

À medida que a colheita da safra 2019/20 de soja avança, a preocupação com o atraso inicial do plantio dá lugar ao otimismo alimentado pela produtividade elevada, resultado do clima favorável durante o desenvolvimento das lavouras. Com isso, a produção deverá mesmo bater um novo recorde, e as condições de mercado sugerem que esse bom volume vai proporcionar rentabilidades em geral positivas no campo.

Segundo a AgRural, a colheita chegou na quinta-feira a 9% da área cultivada no Brasil na temporada – estimada em 36,6 milhões de hectares pela consultoria -, um avanço de cinco pontos percentuais em relação à semana anterior. Menos que na acelerada safra 2018/19, quando 19% da área já havia sido colhida no fim de janeiro, mas ritmo já dentro da média dos últimos cinco anos.

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Como de costume, os trabalhos estão mais adiantados em Mato Grosso, que lidera a produção brasileira de grãos. Conforme o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), no Estado a colheita foi concluída em 26,7% de uma área calculada em 9,8 milhões de hectares, 5,4 pontos acima da média dos últimos cinco anos.

Com os ventos favoráveis, o Imea acaba de elevar sua previsão para a colheita estadual em 3,3% ante a projeção anterior, feita em dezembro, e passou a calcular 34 milhões de toneladas. Se confirmado, o volume será 4,7% maior que o de 2018/19 e representará um novo recorde. Quase 60% da colheita total projetada já foi negociada, acima dos 46,6% registrados no mesmo período do ano passado, quando estava em jogo a comercialização da safra anterior.

O Imea ampliou em 0,5% sua estimativa para a área plantada em Mato Grosso, para 9,8 milhões de hectares (1,6% a mais que em 2018/19), e para o rendimento das plantações a previsão aumentou para 57,71 sacas por hectare, um incremento de 3% ante 2018/19 e também um novo recorde, conforme o instituto.

De acordo com André Debastiani, sócio analista da Agroconsult, as áreas percorridas pelo Rally da Safra – expedição técnica promovida pela consultoria – no sudeste mato-grossense e no sudoeste de Goiás, confirmam as condições climáticas favoráveis. “No ano passado, a produtividade foi limitada pela nebulosidade, mas neste ciclo ocorreu o oposto e é boa a luminosidade”.

Segundo ele, o potencial produtivo é bom nas lavouras de soja plantadas em condições favoráveis de umidade. “Vimos produtividades muito boas, com talhões com 70 sacas ou mais”, afirmou Debastiani.

Com o clima favorável em Mato Grosso e com danos expressivos apenas em regiões do Rio Grande do Sul, a consultoria INTL FCStone elevou sua projeção para a colheita de soja em todo país em 1,9%, para o recorde de 124 milhões de toneladas. No ciclo 2018/19, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foram 115 milhões.

Além de farta, a safra 2019/20 deve ser rentável para o sojicultor. Segundo a Datagro, a perspectiva é de preços em linha com os de 2019, quando a média foi de R$ 75,15 por saca de 60 quilos. “Será mais um ano de resultado positivo. Dependendo da relação entre as cotações na bolsa de Chicago e o câmbio, os valores por saca poderão ser até melhores”, afirmou o coordenador da Datagro Grãos, Flávio França Júnior.

Segundo ele, os preços poderão subir em Chicago no segundo semestre do ano com o aumento das vendas dos Estados Unidos em virtude do armistício entre Washington e Pequim e da consequente queda dos estoques americanos.

Em contrapartida, caso a assinatura do acordo comercial entre EUA e China aqueça as exportações americanas, os prêmios pagos pela soja nos portos brasileiros deverão permanecer próximos da média de 2019, de 73 centavos de dólar por bushel. “Não é algo tão alto como em 2018, quando o prêmio chegou a US$ 1,38 o bushel em Paranaguá, mas ainda assim é um patamar elevado”, disse França Júnior. Para o dólar, o analista projeta uma cotação média levemente inferior aos R$ 3,94 de 2019.

A perspectiva de uma rentabilidade positiva no campo ocorre mesmo diante do aumento nos custos de produção neste ciclo, afirmou o analista. Segundo ele, o dólar valorizado sobre o real ampliou os gastos dos produtores em 12%, em média.

Esse cenário, porém, não inclui os produtores do Rio Grande do Sul, onde a safra de verão foi prejudicada pela estiagem. A quebra de safra no Estado levou a Datagro a revisar o volume de produção da oleaginosa no país neste ciclo de até 126 milhões de toneladas para entre 122 milhões e 123 milhões de toneladas. Mas, ainda assim, seria um novo recorde histórico.

Pelo mesmo motivo, a Datagro também revisou a previsão para a produção brasileira de milho em 2019/20, de 103 milhões de toneladas para entre 100 milhões e 101 milhões de toneladas. Em 2018/19 o país colheu 100 milhões de toneladas, segundo dados da Conab.

Confira matéria sobre perspectivas da BrasilAgro para a safra em www.valor.com.br/agro

 

Fonte: https://valor.globo.com/

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