Na prática, a carne deve continuar com preço alto, mas não tão elevado quanto o registrado em dezembro de 2019

O enfraquecimento da inflação das carnes levou à taxa menor do Índice Geral de Preços -10 (IGP-10) entre dezembro e janeiro, de 1,69% para 1,07% – e deve conduzir à desaceleração dos Índices Gerais de Preços (IGPs), como o IGP-DI e o IGP-M, em janeiro. A análise é do economista André Braz, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Na prática, a carne deve continuar com preço alto, mas não tão elevado quanto o registrado em dezembro de 2019, observou.

Isso já pôde ser notado na evolução do IGP-10 de janeiro, de menor ritmo de elevação das carnes, tanto no atacado quanto no varejo — e essa tendência deve prosseguir ao longo dos dois primeiros meses do ano, observou ele.

“A tendência é que os índices sigam em desaceleração”, afirmou Braz. O “choque de proteína” nos IGPs e em outros indicadores inflacionários começou em dezembro do ano passado, quando houve nítido aumento na demanda chinesa pelo produto.

Com câmbio favorável às vendas externas, os produtores brasileiros preferiram deslocar o item para mercado externo, o que diminuiu oferta e elevou preços no Brasil.

O fenômeno teve forte impacto na inflação do período. Mas já começa a arrefecer, observou Braz.

Ao detalhar a evolução da inflação entre dezembro e janeiro, ele avalia que, assim como o índice geral, a inflação atacadista que representa 60% do IGP-10 também desacelerou. O Índice de Preços ao Produtor Amplo -10 (IPA-10) desacelerou de 2,26% para 1,38%. A principal influência para a taxa menor foi a mudança na variação de bovinos (boi vivo no pasto), que passou de avanço de 21,31% para queda de 1,68%. Somente os bovinos representam 3,77% do IPA, comentou. Além disso, a alta na carne bovina atacadista passou de 18,30% para 7,38% de elevação, no mesmo período, e representa 1,2% do total do IPA.

“Esse IGP-10 ainda não captou todo o efeito [da menor inflação das carnes]”, afirmou ele. O indicador desse mês, lembrou ele, tem coleta de preços que vai do dia 11 de dezembro a 10 de janeiro. Ou seja: a tendência é que ocorra um aprofundamento da desaceleração na alta dos preços das carnes, que serão captados por outros IGPs ao longo do mês de janeiro, explicou Braz.

Com os preços diminuindo de preço no atacado, a tendência é que comecem a subir menos também no varejo. A inflação da carne bovina no varejo suavizou de 13,4% para 8,78% entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020. Isso foi um fator de influência para a menor taxa do Índice de Preços ao Consumidor – 10 (IPC-10), que abrandou a alta de 0,75% para 0,51%. Somente esse item pesa 1,89% do total do indicador do varejo.

“A carne no IPC está subindo menos mas ainda registra alta, e é uma alta expressiva. Não dá para comemorar ainda”, afirmou o técnico, acrescentando que desacelerações no varejo normalmente operam de forma mais lenta. Ele comentou ainda que, mesmo com carne bovina menos cara, outros alimentos proteicos que tiveram inflação mais pressionada influenciada pela carne continuaram a subir. É o caso da inflação de frango inteiro (de 2,76% para 6,95%).

Para o técnico, a tendência é que em janeiro as carnes menos caras funcionem como fator de desaceleração dos indicadores inflacionários do período. Isso é uma influência favorável, tendo em vista que, no começo do ano, sempre ocorrem reajustes em preços administrados que elevam os índices – além do “choque sazonal”, na inflação, de alimentos in natura, que sempre sobem de preço nessa época, devido à menor oferta causada por problemas climáticos característicos ao período. “Encontraremos espaço mais forte para desaceleração a partir de março”, acrescentou, ressaltando ainda que, no IGP-10 de janeiro, não foi detectado nenhum indício de espalhamento de processo inflacionário, na economia.

Fonte: https://valor.globo.com/

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